
Reza a profecia que uma mulher preparada saberá ser, deveras, uma mãe. Enternecida com tal expectativa, muito embora
futura, um encontro inesperado surpreendeu-lhe uma noite de sono sob a constelação astral de segredos até então não revelados, quando adormecia velada por seu Mestre amado. Assim mesmo, ao ar livre... que nos faz sentir mais pertinho do Céu!
- Quando for chegado o momento - disse a mãe à tenra criança - prometo não sobrecarregar o teu ser por infundadas e cruéis expectativas. Eis aqui o tesouro que te reservo por herança: liberdade, lápis e papel!
Emocionada a criança sorriu entre lágrimas, esboçou uma expressão que mesclava profunda gratidão com inexplicável receio. A mãe, contudo, sem permitir que fosse interrompida, continuou a falar como se declamasse um poema àquele pequeno ser:
- Sabe, neste tempo em que está confiado aos guardiões para o preparo de sua futura reencarnação, saiba que sua herança, mesmo antes de sua chegada, começarei a compartilhar contigo. O verdadeiro tesouro que é a liberdade para vir como quiser, puder ou merecer. Não para agradar; antes, para cumprir. Se, por ventura, te for privado de alguma habilidade física, não serei eu a questionar os desígnios divinos que te houvera submetido a tão penosa provação... de minha parte estarei atenta para te suprir as necessidade e te estimular os desafios, no silêncio de nossas dores. Caso seja provado em suas condições mentais, sofrendo qualquer ordem de limitação intelectual, de fato não serei eu a questionar as providencias espirituais que impusera a ti tais medidas expiatórias, no entanto compreenderei que um mistério estará guardado no segredo de nossas impotências.
A criança pareceu um tanto aflita, pois a Terra desconhecida poderia te arrebatar o coração sensível com dolorosas revelações. Fez um olhar triste e amedrontado, ao que a mãe reagiu com um sorriso compreensivo, voltando a declamar:
- Tuas causas, talvez, não sejam as minhas. Ainda assim eu estarei contigo, muito embora não caminharei por ti. Contudo, filhote, se vieres em perfeitas condições, alerta-te desde já minha pequena criança, eis que a vitalidade de todas as habilidades conferidas a tua experiência, física e mental, evidencia muitas expectativas sobre suas realizações - os adultos gostam, ainda, de promover as pressões.
Então a criança modificou suas feições e demonstrou-se confusa, como se sua esperteza precoce houvesse possibilitado a ela identificar uma contradição no mundo dos grandes. A mãe fita-o com seriedade, sem perder a ternura de seu olhar e conclui:
- Não questione as verdades que te revelo, regojize-se por a elas ter prévio acesso. As condições de tuas perfeições físicas e mentais te privam do infortunado escudo estacionário, muito utilizado atualmente na Terra: a desculpa. Não terás, minha doçura, como se desculpar diante da inércia, da vida vazia e sem sentido, tampouco dos desafios que te virão em confronto, para que em atitudes revele teu verdadeiro caráter. E eu, sua mãe, que uma vez que o recebo em meus seios nestas perfeitas condições, mãe consciente da vida eterna que sou, terei a obrigação de educar-te. Não poderei sobrecarregar-te com os mimos compensatórios por uma fatalidade que a sorte te ‘presenteasse’, como estão habilitadas a fazer as mães desmanchadas em compaixões de si mesmas, projetando suas carências nas devoções as suas crias mais que a Deus. Terei antes, pequenino, que te corrigir com rigor e te amar na incompreensão do seu olhar voltado para mim carregado de julgamento. Isto significa que talvez não me compreenderá a dureza das repressões e a maneira enérgica que posso me dirigir a ti, quando ainda estiver em formação do caráter que carregará contigo adiante. Por outro lado, como se aprende na física quântica, não te condicionarei o caminho, mas terei imenso prazer em te mostrar o que rege nossas vidas... este é o teu futuro guardado junto a mim: um universo esplêndido de
possibilidades!
- E quando fores... fores para teu caminho cumprir a liberdade de seu destino, eu estarei para ti tal qual o Mestre está para mim: presente no amor, porém não fisicamente! Essa essência te acompanhará como o perfume de uma rosa, para alimentar teus complexos maternos e me aconchegar, por vezes, o ninho vazio.
A esta altura a criança havia percebido que recebera muitas informações e entendeu que a futura mãe já começava a educá-lo e percebeu, ainda, que começara pelo mais precioso dos ensinamentos: a mãe ensinava sobre a contraditória materialização do amor!
“Liberdade, lápis e papel... humm, este é o tesouro que terei por herança” - pensou a criança como quem tenta decifrar um enigma. E foi assim que descobriu que o mundo que a espera só define um destino a ela: possibilidades! No mais, caberá unicamente a ela mesma escrever sua própria história...