CONTO DE UMA PRINCESA


Esta estória tanto pode ser uma 'estorinha' infantil quanto uma 'história' atual das princesas modernas. Depende de você!

Claro, é sobre uma princesa! E esta princesa tinha a pele clara, os olhos verdes e os cabelos louros bem encaracolados, trazia nos cachos a mesma rebeldia juvenil do seu inquieto espírito. Sua mente povoava o universo, o seu coração abrangia todo o planeta Terra, mas seu corpo foi mesmo nascer em uma particular família interiorana. Sua vida, antes mesmo de começar, já representava com exatidão os trejeitos paradoxais da existência e então ela era assim: plena!

Essa africana albina - sim, ainda falo da mesma princesa - era de uma família imperial, porque negra de cor branca também pode ter sua majestade. De princesa mesmo só teve o título, que não lhe durou muito porque o reino da Vossa Alteza era pomposo, mas tinha ao redor muita cerca. E esta rebelde, quero dizer, e esta princesa não conseguia vislumbrar seus horizontes por sobre as altas cercas mantidas pelo Rei, o que a lhe enchia o espírito de inexplicáveis aflições.

Relembrando agora o intelectual francês René Descartes, esta princesa era mesmo um ser pensante e que de tanto pensar fazia dia da noite e, por isso, não demorou muito a parafrasear o filósofo com a máxima "Penso, logo não durmo!". E foi em seu pensamento que ela percebeu que a coroa até podia assentar em sua cabeça, mas ali não se equilibraria jamais. A princesa perambulava muito e como nunca pensou na vida em ser modelo, não havia jamais equilibrado livros ou o que fosse em sua cabeça... já bastava o trabalho que era equilibrar sua mente e decidiu, por fim, que cabeça era lugar de colocar pensamento. E nada mais.

De conto de fadas esta estória só tem mesmo um pedacinho... que devia estar lá bem no começo dizendo 'era uma vez...' ponto final e nada mais. Acontece que esta distinta plebéia, quero dizer, esta distinta princesa desmascarou todos os contos infantis só mesmo de terem pretensiosos finais eternos e felizes. Imaginou que a realidade mais próxima dos que tinha lido seria a história do Rei e da Rainha, duas origens diferentes que se encontraram para sobrepor o amor às tradições. Mas de resto, a Família Real tinha uma história muito mais autêntica.

Admirava as condecorações de ouro e brilhos, mas achava bonito mesmo era a coroa de espinho. Ali sim ela reconheceu majestade naquele crucificado e sentiu vergonha do seu reinado. Então dali brotou um sonho, que em segredo pediu sinceramente a Adonai para, se possível, (re)nascer negra deveras, tendo por teto o céu e por futuro o mundo-de-meu-Deus. Ela só queria nascer assim, do jeitinho mesmo que era, para viver com mais verdade a vida, já sem tanta mentira.

Foi então que ela descobriu que poderia ter um mundo novo criado, reinventado, onde os príncipes e princesas seriam assim feios como ela e as bruxas más lindas como anjos. Um mundo de armadilhas onde era preciso ter olhos de alma para ver. Este era o mundo do sentimento, onde a lei da atração, ação e reação reinava sobre todos os habitantes. E foi aí que a ex-princesa começou a escrever contos infantis, pois queria se certificar que a educação de seus filhos seria assim, bem pertinho da verdade, que é triste e feliz!

E se você quer saber se ela vai ser feliz para sempre, ah... deixa disso. O que importa é que ela vai viver pra sempre perambulando por aí, até conhecer seu mundo e descobrir este infinito que a rodeia, pois já começou essa vida moderna mesmo programada, feito máquina/computador, só que programada para atravessar viva todas as existências. O que ela quer mesmo é deixar de ser princesa, porque ela precisa CRESCER!

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