quinta-feira, 20 de maio de 2010

Canção de ninar!



Reza a profecia que uma mulher preparada saberá ser, deveras, uma mãe. Enternecida com tal expectativa, muito embora futura, um encontro inesperado surpreendeu-lhe uma noite de sono sob a constelação astral de segredos até então não revelados, quando adormecia velada por seu Mestre amado. Assim mesmo, ao ar livre... que nos faz sentir mais pertinho do Céu!

- Quando for chegado o momento - disse a mãe à tenra criança - prometo não sobrecarregar o teu ser por infundadas e cruéis expectativas. Eis aqui o tesouro que te reservo por herança: liberdade, lápis e papel!

Emocionada a criança sorriu entre lágrimas, esboçou uma expressão que mesclava profunda gratidão com inexplicável receio. A mãe, contudo, sem permitir que fosse interrompida, continuou a falar como se declamasse um poema àquele pequeno ser:

- Sabe, neste tempo em que está confiado aos guardiões para o preparo de sua futura reencarnação, saiba que sua herança, mesmo antes de sua chegada, começarei a compartilhar contigo. O verdadeiro tesouro que é a liberdade para vir como quiser, puder ou merecer. Não para agradar; antes, para cumprir. Se, por ventura, te for privado de alguma habilidade física, não serei eu a questionar os desígnios divinos que te houvera submetido a tão penosa provação... de minha parte estarei atenta para te suprir as necessidade e te estimular os desafios, no silêncio de nossas dores. Caso seja provado em suas condições mentais, sofrendo qualquer ordem de limitação intelectual, de fato não serei eu a questionar as providencias espirituais que impusera a ti tais medidas expiatórias, no entanto compreenderei que um mistério estará guardado no segredo de nossas impotências.

A criança pareceu um tanto aflita, pois a Terra desconhecida poderia te arrebatar o coração sensível com dolorosas revelações. Fez um olhar triste e amedrontado, ao que a mãe reagiu com um sorriso compreensivo, voltando a declamar:

- Tuas causas, talvez, não sejam as minhas. Ainda assim eu estarei contigo, muito embora não caminharei por ti. Contudo, filhote, se vieres em perfeitas condições, alerta-te desde já minha pequena criança, eis que a vitalidade de todas as habilidades conferidas a tua experiência, física e mental, evidencia muitas expectativas sobre suas realizações - os adultos gostam, ainda, de promover as pressões.

Então a criança modificou suas feições e demonstrou-se confusa, como se sua esperteza precoce houvesse possibilitado a ela identificar uma contradição no mundo dos grandes. A mãe fita-o com seriedade, sem perder a ternura de seu olhar e conclui:

- Não questione as verdades que te revelo, regojize-se por a elas ter prévio acesso. As condições de tuas perfeições físicas e mentais te privam do infortunado escudo estacionário, muito utilizado atualmente na Terra: a desculpa. Não terás, minha doçura, como se desculpar diante da inércia, da vida vazia e sem sentido, tampouco dos desafios que te virão em confronto, para que em atitudes revele teu verdadeiro caráter. E eu, sua mãe, que uma vez que o recebo em meus seios nestas perfeitas condições, mãe consciente da vida eterna que sou, terei a obrigação de educar-te. Não poderei sobrecarregar-te com os mimos compensatórios por uma fatalidade que a sorte te ‘presenteasse’, como estão habilitadas a fazer as mães desmanchadas em compaixões de si mesmas, projetando suas carências nas devoções as suas crias mais que a Deus. Terei antes, pequenino, que te corrigir com rigor e te amar na incompreensão do seu olhar voltado para mim carregado de julgamento. Isto significa que talvez não me compreenderá a dureza das repressões e a maneira enérgica que posso me dirigir a ti, quando ainda estiver em formação do caráter que carregará contigo adiante. Por outro lado, como se aprende na física quântica, não te condicionarei o caminho, mas terei imenso prazer em te mostrar o que rege nossas vidas... este é o teu futuro guardado junto a mim: um universo esplêndido de possibilidades!

- E quando fores... fores para teu caminho cumprir a liberdade de seu destino, eu estarei para ti tal qual o Mestre está para mim: presente no amor, porém não fisicamente! Essa essência te acompanhará como o perfume de uma rosa, para alimentar teus complexos maternos e me aconchegar, por vezes, o ninho vazio.

A esta altura a criança havia percebido que recebera muitas informações e entendeu que a futura mãe já começava a educá-lo e percebeu, ainda, que começara pelo mais precioso dos ensinamentos: a mãe ensinava sobre a contraditória materialização do amor!

“Liberdade, lápis e papel... humm, este é o tesouro que terei por herança” - pensou a criança como quem tenta decifrar um enigma. E foi assim que descobriu que o mundo que a espera só define um destino a ela: possibilidades! No mais, caberá unicamente a ela mesma escrever sua própria história...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O meu mundo dos espíritos



Eu sou um espírito essencialmente mendigo, longe de qualquer coisa que eu possa identificar com ‘minha casa’. Vivo sem teto porque sequer reconheço meu mundo, tampouco reconhecerei aqui um lar.

Se me oportunizassem neste momento consultar o oráculo, sem temer a esfinge eu questionaria o porquê de ter sido confrontada com os mistérios da vida ainda na minha pureza infantil. Confesso que até hoje encontro dificuldade extrema em conjugar as pluralidades dos mundos que coexistem no mesmo espaço. Sim, me refiro ao mesmo espaço físico, sobrepostos. A qual deles eu pertenço? Temporariamente eu sei, porém considerando minhas origens não vislumbro a dimensão que acomoda a raiz da minha consciência.

Compreendo que o sexto sentido nos une e trago no peito uma gratidão imensurável por vivenciar, muito embora presa à carne, a verdadeira e eterna vida espiritual de nossas origens e destinos. Com que facilidade hoje compreendo meu encanto pelo oriente tibetano e minha afinidade com os raios do sol, de onde guardo a mesma nostalgia que se apodera de mim ao observar as constelações ao escurecer. Uma realidade que se revela como um bálsamo libertador, ao tempo em que me traz o peso do comprometimento. E dada a minha impossibilidade física momentânea, em desdobramento esta noite hei de adormecer aos pés do Himalaia. Passarei a me sentir, então, plenamente protegida, pois nenhum outro lugar neste mundo se assemelharia tanto ao meu lar (desejável).